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20
Nov 09

 

A biblioteca
 

   Na segunda metade da década de 50, o Estado salazarista reforçou, com a criação da Junta de Acção Social, a sua intenção de constituir uma «cultura popular», dando incentivos à organização de bibliotecas que se ativessem à linha dos valores ideológicos salazaristas. Como já foi referido, as bibliotecas no período do Estado Novo caracterizam-se mais facilmente, no plano ideológico, pelas obras e autores que omitiam do que pelos que acolhiam. O acervo da biblioteca da Casa do Povo de Vizela foi sendo construído ao longo dos anos, mesmo antes de disponibilizar um espaço apenas para esse efeito, conforme se constata nas despesas com a aquisição de livros. Inicialmente, seriam os livros de valorização do ruralismo, os de interesse para os rurais alfabetizados. Contudo, foi surgindo nova literatura na biblioteca e, segundo o livro de inventário, em Março 1976 existiam 300 livros e um dicionário “Torrinha”, mantendo-se este mesmo número em Abril de 1981. Apesar da inexistência de qualquer indicador quanto ao número de livros disponíveis no período antes de Abril de 1974, não será de descartar a hipótese de alguns serem destruídos ou extraviados, apesar de os existentes, actualmente, não serem inferiores a duas centenas, entre colecções e avulso

 

No intuito de elaborar também uma breve análise aos orçamentos anuais da Casa do Povo,constatamos que, para além das interrupções na sua elaboração os valores orçamentados não surgem referenciados nas actas, salvo excepções. 

 

Sobre os anos de 1947 e 1948, não surge lavrado em acta qualquer apresentação de orçamentos ou contas de gerência. Nos anos de 1963 e 1964, nas respectivas actas, como não existe referência à aprovação das contas de gerência desses mesmos anos, incluímos, como valores referenciais, os orçamentados para cada ano. Os anos em questão incluem-se nas excepções acima referidas e dispõem de orçamento ordinário e suplementar, conferindo este último um grau elevado de fiabilidade, pois permite um ajuste muito próximo dos valores reais para esse ano. Quanto ao ano de 1966, e não dispondo de valores totais, servimo-nos do somatório dos valores mensais.

 

     Numa breve leitura aos números verificamos que nas duas décadas em questão as receitas quase sempre superaram as despesas. O inicio da construção da sede em 1954 justificam certamente o saldo negativo, bem como nos dois anos seguintes, apesar de um aumento significativo das receitas. No ano de 1956, ano da inauguração da sede, a aquisição do equipamento absorveu também parte importante da verba disponível, em especial o posto clínico. A partir de 1963, surge um aumento significativo das receitas e das despesas, sendo esses valores justificados, quanto às receitas, pela exploração do salão recreativo e juros, entre outros. Quanto às despesas, o aumento deveu-se, entre outros, ao crescimento dos encargos com a remuneração do pessoal, incluindo o médico, aquisição de bens móveis e imóveis e o equipamento do Centro de Recreio Popular de Vizela. Em 1964, a Casa do Povo de Vizela enviou um donativo significativo para ajuda das vítimas do sismo ocorrido na ilha de S. Jorge (Açores).

 

 Análise dos movimentos mensais (1966)

 

A partir do somatório dos valores mensais (receita e despesas) do ano 1966, efectuamos uma breve análise às contas de gerência, no sentido de verificar e evolução do balancete mensal. Efectivamente, as receitas superaram as despesas na maioria dos meses, evidenciando-se negativamente os meses de Junho e Setembro, com valores muito abaixo dos 5.000$00, no que concerne às receitas. No entanto, e por falta de oportunidade, não foi possível apurar o motivo destas diferenças, constatando-se apenas, no final do ano, que o saldo manteve-se positivo, muito idêntico ao inicial.

 

  Nota final
   
Propusermo-nos efectuar um trabalho de análise sobre a Casa do Povo de Vizela, incidindo na sua importância para a comunidade como extensão de um Estado providente, no período do Estado Novo. Nesse sentido, a incursão pelo arquivo documental reverte-se de crucial importância, de forma a recolher a informação disponível e, numa conjunção de fontes, elaborar o trabalho proposto. As dificuldades encontradas na obtenção dessas fontes, por rarearem, não nos permitiram alcançar todos os objectivos nesta primeira abordagem. As fontes disponíveis permitiram-nos uma análise superficial à actuação das direcções da Casa do Povo, nomeadamente as reuniões e as contas de gerência. A análise de outros dados disponíveis, como aos elementos estatísticos do movimento do posto clínico e a correspondência recebida, contribuirá certamente para um estudo mais aprofundado. No entanto, será oportuno referir que a recuperação do espólio documental extraviado, como as fichas dos sócios, permitiria obter resultados a outro nível, pois o estudo da Casa do Povo de Vizela não se esgota aqui. Com as fontes disponíveis e recolha dos depoimentos de pessoas que acompanharam a actividade da instituição, será possível alcançar esse desidrato. Neste sentido, o levantamento e análise do que resta da biblioteca reveste-se de importância, contribuindo também para melhor compreender a sua eficácia na propagação de uma doutrina política junto da população, bem como uma identificação do acervo.
    
Como conclusão, será justo realçar que a elaboração deste trabalho não seria possível sem a colaboração da actual direcção da Casa do Povo, na pessoa do senhor Júlio César Ferreira, disponibilizando o arquivo documental existente, bem como as suas memórias.  
publicado por Casa do Povo de Vizela às 16:08

CASA DO POVO DE VIZELA
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